sábado, 28 de outubro de 2017

Opinião | "Maresia e Fortuna" de Andreia Ferreira

Maresia e Fortuna
Classificação: 4 Estrelas

Há cerca de um ano atrás aceitei o convite da Andreia para ler este livro enquanto leitora-beta. Estive para não o fazer, mas entretanto as coisas alinharam-se e acabei por recebê-lo. Rever texto é um pouco diferente do que apenas ler. Impliquei com algumas coisas (ou não seria eu, a rainha das implicações e afins) e "trepei" paredes com as descrições de umas partes que compõem o livro (quando é algo que se relaciona com assuntos que, de alguma forma dominamos, torna-se mais complicado olhar para as coisas sem as nossas "lentes" habituais). 

A Andreia é daquelas escritoras com quem é fácil comunicar. Que ouve as sugestões, que as discute e que tem o bom senso de escolher aquelas que lhe fazem sentido enquanto a autora da obra (porque, por vezes, enquanto leitores-beta gostamos de navegar por mares um pouco estranhos e que em nada se aproximam daquilo que os autores pretendem). Por isso, foi muito bom desenvolver este trabalho.

Dado que não li a versão final, andava a dever a leitura e a opinião à Andreia há algum tempo. Maresia e fortuna é um livro que se distancia da temática abordada pela a autora em livros anteriores. Pessoalmente, gosto muito mais desta abordagem narrativa do que a dos soberbas, é apenas um gosto pessoal. Para além de gostar mais da temática, acho que a autora continua a crescer na forma como entrelaça as palavras e os acontecimentos. Sabe gerir melhor os segredos e o suspense, apresenta-nos personagens mais complexas e realistas e constrói um fio condutor credível e que entusiasma a leitura.

Quantos às personagens deste livro não esperem encontrar personagens típicas, ou que obedeçam a um estereótipo comum. São personagens humanas, com as suas qualidades e com os seus defeitos e isso acaba por dar um toque realista às mesma. Aquela que poderá suscitar maior controvérsia é a Júlia. Não é uma personagem fácil de se gostar. Tem uma personalidade particular, uma mente que, metaforicamente, é como um novelo de lã cheio de reviravoltas que é preciso ir desenrolando, pacientemente, de forma a podermos conhecer com alguma clareza a confusão em vive. Eu empatizei com ela. Conseguia colocar-me no lugar dela, apesar de não gostar dela. Vive demasiado egoísmo dentro dela e isso nem sempre é fácil de digerir. 
Eduardo é um adolescente descontraído, divertido e que é de fácil trato. A Vanessa, sobrinha de Júlia, é também uma miúda com quem é fácil simpatizar. É sensata e parece que reprime ali algum extroversão para não ferir a suscetibilidade da tia.
Consegui perceber o mundo obscuro do Simão, porém não consegui compreender a crueldade e estupidez do Luís (talvez seja daquelas pessoas em que a maldade já nasce agarrada ao coração). 
Adelaide é uma mulher simples e que tenta gerir a sua vida familiar da forma como consegue e que acha ser a mais correta. Quem somos nós para julgar as atitudes de uma mãe que acha que está a fazer o melhor que pode e sabe?

O que é que me impede de dar uma maior classificação a este livro? 
1) Penso que seria mais adequado ele ter sido narrado na primeira pessoa. Dado que o objetivo era dar-nos a conhecer a perspetiva das personagens, penso que a primeira pessoa funcionaria melhor.
2) Sinto que falta qualquer coisa à escrita, mas não consigo expressar por palavras esta sensação. É como se faltasse qualquer coisa que tornasse o livro mais emocional, mais expressivo e que criasse em mim aquela vontade de viver ali no meio das personagens.

Eu gostei bastante da forma como todo este enredo se encaixou naquela final. Houve alturas - na primeira leitura pois na segunda já sabia perfeitamente o que iria acontecer - em que pensava que era aquilo que iria acontecer, houve outras em que duvidei. É um final forte e intenso, que me deixou a pensar e a refletir sobre a forma como todas as personagens passariam a lidar com este desfecho. 
Dada a minha decisão de suspender temporariamente ou definitivamente as minhas leituras beta, se este for o último, considero que encerro a minha atividade de forma muito positiva e satisfatória.
Apostem no livro, e deixem de lado os preconceitos em relação aos autores portugueses. Por cá, faz-se tão bom ou melhor trabalho do que no estrangeiro. 

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