Autor: Markus Zusak
Ano: 2005 (PT:2008)
Editora: Editorial Presença
Número de páginas: 463
Classificação: 5 Estrelas
SinopseMolching, um pequeno subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra Mundial. Na Rua Himmel as pessoas vivem um dia-a-dia penoso, sob o peso da suástica e dos bombardeamentos cada vez mais frequentes, mas não deixaram de sonhar. A Morte, narradora omnipresente e omnisciente, cansada de recolher almas, observa com compaixão e fascínio a estranha natureza dos humanos. Através do seu olhar intemporal, é-nos contada a história da pequena Liesel e dos seus pais adoptivos, Hans, o pintor acordeonista de olhos de prata, e Rosa, a mulher com cara de cartão amarrotado, do pequeno Rudy, cujo herói era o atleta negro Jesse Owen, e de Max, o pugilista judeu, que um dia veio esconder-se na cave da família Hubermann e que escreveu e ilustrou livros, para oferecer à rapariga que roubava livros, sobre as páginas de Mein Kampf recuperadas com tinta branca, ou ainda a história da mulher que convidou Liesel a frequentar a sua biblioteca, enquanto os nazis queimavam livros proibidos em grandes fogueiras. Um livro sobre uma época em que as palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar. Um livro luminoso e leve como um poema, que se lê com deslumbramento e emoção.
Opinião - PODE CONTER SPOILERS
Sou uma admiradora de livros que têm como temática de base a Segunda Guerra Mundial. É um período da história que me provoca uma cacofonia de emoções que, muitas vezes não consigo explicar.
Este livro não merece uma simples análise crítica. Este livro, na minha humilde opinião, é carregado de significado e simbolismo. A este respeito quero alertar os meus seguidores que É APENAS A MINHA INTERPRETAÇÃO DAQUILO QUE LI. É apenas o meu olhar sobre o texto que aqui é apresentado.
O primeiro aspecto que destaco é a originalidade do narrador de toda esta história. A Morte surge assim como uma narrador perspicaz, irónico (adorei os comentários que ele ia fazendo aos acontecimentos). Gostei da forma como ela descreve o seu trabalho, "Basta dizer que em determinado ponto do tempo, me encontrarão debruçados sobre vós, tão jovial quanto possível. A vossa alma estará nos meus braços. No meu ombro pousará uma cor. Levar-vos-ei docemente comigo." (p. 11 e 12) e como vai justificando aquilo que tem de fazer, num período da história em que teve uma actividade profissional intensa.
Considero o início do livro um pouco aborrecido. Acho que falta mais emoção na forma como nos é apresentada Liesel, a Rapariga que Roubava Livros. Na minha opinião, teria mais impacto se fosse mais explorada a relação entre Liesel e sua mãe biológica. Acho que o autor deveria ter dado ao leitor mais aspectos relativos à família biológica de Liesel, embora, em parte, perceba porque tal não aconteceu. A Morte, a nossa narradora, apenas se cruzou com Liesel no momento em que teve de deixar a mãe biológica.
Max Vandenburg, o pugilista judeu, foi acolhido na cava da família adoptiva de Liesel. A relação de amizade que Max estabeleceu com a criança foi muito tocante, e com o adiantar do livro tornou-se protagonista de momentos carregados de sentimento. Fiquei com imensa pena de não haver mais desenvolvimentos desta relação no final do livro. Acho que se tal acontecesse torná-la-ia muito mais tocante.
O final é daqueles de deixar um nó na garganta. Depois de um início que me estava a deixar um pouco desiludida com o livro, o final deu-lhe um toque especial deixando-me perfeitamente tocada por estas personagens, pelos seus comportamentos, por tudo aquilo que passaram durante uma guerra injusta (aliás todas as guerras são injustas e sem motivo que as justifique).
Relativamente à simbologia...
Capa: De facto, esta capa não é das mais belas e apelativas que já passaram pelas minhas mãos, mas tem tudo que ver com o livro e com a realidade que rodeia os humanos. De facto, a morte andou várias vezes de mãos dadas com Liesel, mas ela conseguiu sempre fintá-la. Tal aspecto acontece com todos nós. Todos os dias andamos de mãos dadas com a morte, ela acompanhamo-nos tal como a vida nos acompanha. A linha que separa a vida da morte é muito ténue.
Os livros que foram roubados pela Liesel: Todos os livros que Liesel roubou tinham um significado que se encaixava no momento da narrativa em questão. O manual do coveiro, primeiro livro roubado por Liesel, constitui um manual sobre técnicas de cavar sepulturas e aparece no momento em que a nossa rapariga que rouba livro se confronta, pela primeira vez, com a morte.
Rua Himmel - Himmel quer dizer céu. Aqui está bem visível uma antítese, esta rua assumiu contornos de céu mas também de inferno. Se por um lado foi neste lugar que que Liesel aprendeu o verdadeiro significado da amizade, foi também este lugar que lhe roubou todas essas amizades.
Palavras - o poder das palavras é infinito. Elas levam-nos aos mais diversos lugares, fazem-nos abstrair do mundo e podem salvar-nos a vida, como aconteceu com Liesel.
Os melhores sacudidores de palavras eram os que compreendiam o verdadeiro poder das palavras. Eram esses que conseguiam trepar mais alto. Um desses sacudidores de palavras era uma rapariga pequena e franzina. Era conhecida como o melhor sacudidor de palavras da sua região porque sabia como uma pessoa pode ficar impotente sem palavras.
Max Vandenburg, A Sacudidora de Palavras, in A rapariga que roubava livros
Esta é a minha visão do livro, a minha interpretação das palavras que me acompanharam. Também tentei sacudi-las, não sei se fui bem sucedida. Gostava de saber o que pensam vocês acerca deste livro, caso já o tenham lido.
Boas leituras :)
(Acho que nunca publiquei uma opinião tão longa!)