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quarta-feira, 21 de março de 2018

Porque hoje se celebra a poesia

Cada palavra,
Desenhada com amor
Transporta uma infinidade de mensagens
Abraçando corações 
Despertando emoções.

As palavras devem ser simples,
Sinceras, amigáveis
Não devem ser espadas
De lâminas infindáveis
Que ferem a alma que as recebem.

Num poema as palavras dançam,
Arranjam-se ao gosto do poeta
Levam amor e saudade,
Onde ainda cantam
O doce sabor da liberdade. 


Hoje é o Dia Mundial da Poesia! De vez enquanto gosto de brincar com as palavras, arranjá-las com carinho e dar-lhe a forma de uma poesia. Nem sempre mostro as minhas "costuras" de palavras por aqui. Mas hoje o dia é especial! Fica aqui mais uma "costura"... Espero que gostem! E hoje, pelo menos hoje, abracem as palavras de um poema. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Opinião | "Os meus poemas não rimam" de Ana Beatriz Cruz

Os Meus Poemas Não Rimam
Classificação: 3 Estrelas

Tenho um gosto particular por poesia. Gosto de ler os poemas em que as palavras se encaixam de forma perfeita para transmitir sentimentos, vivências, paixões ou simples pensamentos.
Em Os meus poemas não rimam, Ana Cruz apresenta-nos um conjunto de poemas muito intimistas. No fundo, encontramos "arranjos" de palavras que transmitem aquilo que Ana sente pelo Mundo em que vive e pelas pessoas que preenchem o seu mundo.

São poemas que deixam passar a sensibilidade e permitem que ela chegue até nós. 
É um livro que se lê muito facilmente. Os poemas não são complexos, porém fazem-nos pensar sobre a vida e sobre de que forma deveríamos olhas para as coisas. Para uma chuva que nos purifica e limpa a alma, para aquele amor bom que nasce de uma construção conjunta, para aquele momento presente que queremos congelar no tempo para absorver mais dele.

Espero que a autora continua a partilhar mais da sua poesia connosco e, quem sabe, aventurar-se pelo estilo narrativo, já que a autora "sem palavras não consegue viver".

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela autora em troca de uma opinião sincera. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Opinião | "A fronteira do perpétuo" de Teresa Poças


Classificação: 2 Estrelas

Li este livro a convite da Editorial Novembro. Acedi ao pedido porque é um livro de poesia e fiquei logo curiosa por ler os poemas. 
Eu gosto muito de ler poesia, apesar de não o fazer com grande frequência. Para mim, a poesia é uma expressão de sensibilidade. Acaba por ser um jogo de palavras que guarda muitos sentimentos e deixa transparecer a sensibilidade de quem escreve.

A fronteira do perpétuo consegue reunir poemas onde as palavras se arranjam de forma a transmitir os mais variados sentimentos. Apesar de, aparentemente, a maioria dos poemas tentar transmitir sentimentos ligados à solidão e a sentimentos mais negativos, em alguns deles eu consegui vislumbrar a esperança e vontade de ser diferente. No fundo, é como se, em alguns poemas, transparecesse a ideia de que o sofrimento é finito e que há outras coisas para além dele. 

Neste livro encontramos poemas que convidam à reflexão:

"A batalha mais difícil é sempre aquela que criamos com nós mesmos
Porque a guerra que declaramos aos outros,
Mesmo que perdida,
Nunca é culpa nossa"
(excerto de Autoadversário, p.63)

Este pequeno excerto remete-nos para as batalhas que travamos com nós próprios e com os outros, ao mesmo tempo que nos convida a olhar para estas batalhas do nosso ponto de vista. Sendo nós a criá-las, quer connosco quer com os outros, temos tendência a encontrar um "bode expiatório". 

Houve alguns poemas que não me parecem ter uma escrita e uma estrutura tão poética, daí não ter atribuído uma classificação mais alta. 
Foi uma leitura agradável, ajudou-me a relaxar e a desanuviar de uma leitura mais densa que me está a custar terminar.

Espero que a autora nos possa brindar, num futuro próximo, com poemas mais complexos ou até mesmo com um texto narrativo. 

Nota: Este livro foi-me cedido pela editora em troca de uma opinião honesta.
Uma leitura com o apoio da:

terça-feira, 22 de março de 2016

A propósito do dia Mundial da Poesia


Ontem assinalou-se o Dia Mundial da Poesia, mas não consegui vir aqui para vos deixar um poema e assinalar o dia. 
Eu gosto muito de poesia... Gosto de ler, de analisar, de tentar ver o que está para além das palavras impressas na folha ou que nos aparecem no ecrã de um computador.

Hoje trago-vos um poema especial. Um poema que marca o início de uma amizade que espero que seja boa e longa. Em finais de 2014 comecei a contactar com uma rapariga por causa de um projeto de investigação. Esta relação começou por ser profissional, mas o desenvolvimento da vida acabou por nos fazer apoiar uma outra, ajudar... E desde meados do ano passado que olho para a C. como amiga. Uma pessoa especial que me tem dado imenso apoio e que eu tenho muito gosto em ajudar sempre que ela precisa. 

O ano passado, numa altura em que andava particularmente em baixo e em que a C. passava por uma fase algo atribulado por diversas vezes falamos ao telemóvel na tentativa de nos alegramos e arranjarmos coragem para ultrapassar aquilo que estava menos bem. Num desses telefonemas, esta minha amiga partilhou comigo que tinha um poema que ela lia todos os dias para a ajudar a ganhar força e enfrentar o dia-a-dia. E decidiu-o partilhar comigo nessa altura. 


            Recomeça....
            Se puderes
            Sem angústia
            E sem pressa.
            E os passos que deres,
            Nesse caminho duro
            Do futuro
            Dá-os em liberdade.
            Enquanto não alcances
            Não descanses.
            De nenhum fruto queiras só metade.

            E, nunca saciado,
            Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
            Sempre a sonhar e vendo
            O logro da aventura.
            És homem, não te esqueças!
            Só é tua a loucura
            Onde, com lucidez, te reconheças...

            Miguel Torga TORGA, M., Diário XIII

Este ano decidi colocar este poema na primeira página da minha agenda. E sempre que me sinto mais angustiada ou sem esperança leio este poema. Afina, todos os dias são dias para recomeçar...

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Poetic Dreams | Acordai (José Gomes Ferreira)

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

[Já há muito tempo que não deixa um pouco de poesia aqui no meu cantinho e logo eu que gosto imenso de poesia para deixá-la de lado. Este poema é, no fundo, uma música com letra José Gomes Ferreira de e música de  Fernando Lopes Graça. Pessoalmente gosto da intensidade da letra e da melodia que a acompanha. Vou deixar aqui em baixo a música para que possam apreciar.]


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Poetic Dreams

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Poetic Dreams

Amor Após Amor

Tempo virá
em que, jubiloso,
saudarás a tua própria chegada
à tua própria porta, no teu próprio espelho,
e cada um sorrirá às boas-vindas do outro

e dirá: Senta-te aqui. Come.
Amarás de novo o estranho que foi o teu eu.
Darás vinho. Darás pão. Devolverás o teu coração
a si mesmo, ao desconhecido que te amou

a tua vida inteira, a quem ignoraste
a favor de outro, que te conhece de cor.
Tira as cartas de amor da estante,

as fotografias, os bilhetes desesperados,
retira a tua própria imagem do espelho.
Senta-te. Banqueteia-te com a tua vida.

               Derek Walcott (retirado do livro A mulher do viajante do tempo)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Poetic Dreams

Tudo que faço medito

Tudo que falo medito
Fica sempre na metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço - 

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.
             Fernando Pessoa

sábado, 11 de maio de 2013

Poetic Dreams


E como esta semana ando numa de saudosismo, o Poetic Dreams será em homenagem a esta "minha" cidade. 

Balada da Despedida 2012
Perdido no mar negro da memória
Vejo o rumo a seguir.
Traço minha alma em lembrança
Deste abraço que me quer fugir.

Oh Sé! Levo a saudade
Que contigo aprendi a chorar.
Feitiço desta cidade!
Vou preso ao me libertar.

Sonho em ficar!
Sonhar é partir!

Sinto-me em vozes do outrora.
Escondo o pranto. Vou sorrir!
Cantam as cordas a minha hora
No silêncio que me vê partir.

Choro a certeza do Passado:
Poema eterno de um instante;
Sonhos, versos, vida... Os receios
De um Fado tão distante.

Oh Sé! Levo a saudade
Que contigo aprendi a chorar.
Feitiço desta cidade!
Vou preso ao me libertar.

Sonho em ficar!
Sonhar é partir!

Sinto-me em vozes do outrora.
Escondo o pranto. Vou sorrir!
Cantam as cordas a minha hora
No silêncio que me vê partir.

Hoje Coimbra... Amanhã saudade!







sexta-feira, 12 de abril de 2013

Poetic Dreams

A mulher

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como saber ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa de uma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade, 
Que se esvai e que foge num lamento!

Florbela Espanca

(É por este, e por tantos outros, que adoro Florbela Espanca)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Poetic Dreams

Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada e mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

É fria em meu querer.
Os meus desejos são
cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 22 de março de 2013

Poetic Dreams

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera, 
Se eu estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera 
passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se eu soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois e amanhã.
Se esse é o tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter 
preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, Heterónimo de Fernando Pessoa

Ontem assinalou-se o dia Mundial da Poesia e, como forma de assinalar a data escolhi um dos melhores poetas portugueses, Fernando Pessoa através de um dos meus heterónimos preferidos: Alberto Caeiro.
Fernando Pessoa é (é e não foi porque na minha opinião os grandes escritores nunca morrem) uma figura marcante da literatura portuguesa e que nos ofereceu uma obra rica e múltipla que nos faz viajar pelas palavras. 

A poesia é uma forma de as pessoas se expressarem. Pode ter mais ou  menos sentimento, pode ser mais ou menos extensa, pode falar de amor, da natureza, da amizade... Pode tocar corações, activar as lágrimas, fazer suspirar... A poesia é uma óptima forma de expressão, por isso leiam mais poesia e, principalmente, (re)descubram os grandes poetas portugueses. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Poetic Dreams

Minha obra
Pinceladas de barro cor da pele cobrem minhas cicatrizes como um carinho
Todas as manhãs antes de me iludir com a vida,
Lavo no escuro adocicado minhas pequena pupilas
e escorrego o sabão nos cílios da pequena boneca
Cubro a alma com uma pitada de lápis nas sobrancelhas finas,
faço-as ficarem bem grossas com o perfil de misteriosa...
Minhas mãos já sabem de cor a forma de cada olheira...
Profundas de tanta chuva que tomou
É como se cobrisse minha alma todas as manhãs,
É como se a mim só eu conhecesse...
Quando estou definitivamente uma pintura de Baquiat
Olho-me no espelho e o que vejo?
Um touro, uma donzela, um insecto, uma traça, um sonho!
Não sei bem se vejo ou deliro, mas crio coragem e abro a porta.
Quase sempre venta e lacrimeja
Coloco a bagagem nas costas
E de costas me olho mais uma vez no espelho
Sim, agora estou pronta!
Mensageiros do destino me perdoem, 
tenho pressa, saiam da frente!
Que meu cansaço derrete meu barro e a escultura cai
Tenho pressa...
minha vida é passageira e meu escudo de pele?
Moldado por cicatrizes

Quando chego em caso,
sento, tiro os sapatos, calço minha essência e choro.
Quando a obra facial se desfaz,
Coloco as mãos sobre o rosto e sorrio,
Acendo uma vela, abro a torneira
E lavo minha alma,
Agora nua.

Bárbara Paz

Ouvi este poema, pela primeira vez no programa "Alta definição". 
Bárbara Paz é uma actriz brasileira que, entre muitas outras circunstâncias da vida, sofreu um acidente aos 17 anos que lhe deixou graves marcas  no rosto (cicatrizes longas e profundas) limitando-lhe o acesso a muitos trabalhos como actriz e como modelo. Desde esse dia, a maquilhagem faz parte da sua vida. Usa-a para esconder as cicatrizes que lhe cobrem o rosto.  Este poema é autobiográfico. Espero que gostem tanto quanto eu gostei.  

sexta-feira, 1 de março de 2013

Poetic Dreams

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através o mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
                               Sophia de Mello Breyner Andersen  

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Poetic Dreams

Escreve-me...

Escreve-me...

Escreve-me! Ainda que seja só 
Uma palavras, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!" Cinco letras pequeninas, 
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavras apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poetic Dreams

Atitude
Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me 
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
passará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

Cecília Meireles, Viagem

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Poetic Dreams

Quem?Não sei quem és. Já não te vejo bem... 
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...) 
Sonho que um outro sonho me desfez? 
Fantasma de que amor? Sombra de quem? 

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?... 
- Não sei se tu, amor, assim me vês!... 
Nossos olhos não são nossos, talvez... 
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!... 

És tudo e não és nada... És a desgraça... 
És quem nem sequer vejo; és um que passa... 
És sorriso de Deus que não mereço... 

És aquele que vive e que morreu... 
És aquele que é quase um outro eu... 
És aquele que nem sequer conheço... 


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Poetic Dreams

Saudade 

Ter saudade 
é vaga disforme de um corpo. 
Ter saudade 
é pássaro que aparece e se apaga 
erguido de confusão 
na angústia, teste dado à natureza 
bruxuleante dentro de mim. 
Ter saudade 
é fingir qualquer coisa que inquieta, 
levantada, desenterrada do crivo da memória. 
Por vezes quando o tempo por ela passa 
não passa o tempo da saudade, 
estátua rígida dum destino anoitecido, 
passa um nada meio acontecido. 
Saudade, 
é filha da alma do mundo 
que de tanto ser outro 
sou eu já. 
Saudade, 
porque viajas cansada 
em horas dentro de mim? 
Saudade 
que vieste até à última força desta linha, 
brumosa da eterna caminhada. 
Sempre que vieres 
sem avisares 
leva-me contigo 
para que a paz volte 
à memória de meu corpo 
como o rio que passa 
no tempo final da minha natureza. 

Carlos Melo Santos, in "Lavra de Amor"

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Poetic Dreams

Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplica
- Sílaba por sílaba -
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos

Sophia de Mello Breyner Andersen, in O Nome das Coisas

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Poetic Dreams

Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


                          Vinicius de Moraes

UM FELIZ NATAL A TODOS AQUELES QUE POR AQUI PASSAM DEIXANDO UM BOCADINHO DE SI PRÓPRIOS!