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quinta-feira, 8 de março de 2018

Por detrás de uma data| O dia Internacional da Mulher



Por entre festejos e jantares organizados pelo núcleo feminino por estes dias, pergunto-me se as mulheres que aderem a tais festejos conhecem o verdadeiro significado por detrás da data. Presumo que não... Comercializou-se tanto o dia que a parte realmente fundamental deste dia, os direitos das mulheres e a igualdade de género, ficou um pouco ao abandono. 

Nestes dois últimos dias tenho refletido com a Denise (Quando se abre um livro) acerca da "palhaçada" dos jantares que proliferam por esta data (desculpem-me a abordagem, não tenho nada contra este tipo de jantares e respeito as mulheres que gostam de assinalar o dia com este género de festejos). Sim, é uma forma de assinalar o dia tão válida quanto outras formas. Contudo, questiono-me: Será que as mulheres que estão na fotografia acima, as grandes responsáveis por haver um dia Internacional da Mulher, se identificam com tais festejos para assinalar a data? Eu penso que não. Acima de tudo, estas mulheres procuraram lutar por um conjunto de direitos que lhes era negado. Afirmaram-se perante uma sociedade que não as reconhecia. Por isso, será que com os jantares restringidos ao público feminino vamos promover uma cidadania ativa, onde as mulheres têm disponíveis os mesmos lugares que os homens? Será que é assim que promovemos a igualdade?

Afinal, o que fizeram as mulheres da fotografia? Há 161, no dia 8 de Março, um grupo de operárias de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque, fez uma enorme greve e ocuparam a fábrica reivindicando melhores condições de trabalho. Entre estas reivindicações estava a igualdade salarial entre homens e mulheres. Algo que ainda hoje é a nossa luta. 
A ousadia destas mulheres valeu-lhes uma violenta repressão para com a sua manifestação e acabaram trancadas dentro da fábrica, que foi posteriormente incendiada. Cerca de 130 operárias morreram carbonizadas. Em consequência deste terrível acontecimento, a ONU, em 1975 oficializou o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher

Custa-me um pouco ver a falta de solidariedade entre humanos, entre humanos e animais e, particularmente entre mulheres. Quantas das mulheres que se juntam para jantar não passam parte do ano a criticar as suas companheiras de mesa? Quantas dessas mulheres estenderam a mão a outra mulher que lhes pediu ajuda? Atenção, não estou a dizer que todas as mulheres são assim. Quero apenas frisar que algumas das mulheres agem assim, porque no fundo o que interessa é ir a um jantar e conviver com pessoas que, em alguns casos, não nos dizem nada e com as quais nem comunicamos assim muito. Não são parte integrante da nossa rede social e pessoal mais próxima. E é do excessivo consumismo que se passou a associar à data que estas coisas se vão disseminando.

Antes de se atirarem aos festejos, gostaria de deixar aqui algumas linhas de reflexão. Reservem um pouco do dia para pensar nas desigualdades sociais, económicas, emocionais que as mulheres têm de enfrentar nos dias de hoje. Pensam nas mulheres que não podem decidir os aspetos da sua vida. A quantidade de mulheres que ainda sofre às mãos de agressores. As mulheres vítimas de assédio sexual. Conhecem uma mulher que precisa de companhia? Ofereçam-lhe alguns minutos do vosso dia. Já há muito tempo que não estão com aquela vossa amiga especial? Marquem um lanche ou um café. Há quanto tempo não tiram um pouco do vosso dia para estarem com a vossa mãe/filha/sobrinha? Pois arranjem esse tempo e partilhem com elas essa coisa tão nossa de sermos mulheres. Liguem aquela mulher especial da vossa vida. Valorizem as mulheres no geral e, em particular, aquelas que fazem de vocês mulheres e pessoas melhores.

Agora, de uma mulher para outras mulheres, a cada dia do ano, e não apenas no dia 8 de Março, lutem pelos vossos direitos, salvaguardando os direitos dos outros. Quando, na corrida da vida, ultrapassarem alguém, façam-no com justeza, delicadeza e gratidão. E, se puderem, estendam a mão a quem vai mais atrás. Não ofereçam comentários desagradáveis a outro ser humano, em particular a outra mulher (hoje ela, amanhã tu). Cuidado com os comentários baratos e ofensivos nas redes sociais. Só se destila veneno e isso não é saudável para nenhuma das partes. Sejam honestas, elogiem em público e apontem os defeitos em privado, dando oportunidade a quem falhou de se corrigir. 

E hoje, lembrem-se do quanto estas operárias lutaram e não conseguiram nada para elas. Porém, abriram portas para que hoje a nossa situação seja diferente da delas. 

sábado, 2 de setembro de 2017

Reflexões | Um olhar sobre as leituras beta


Hoje dou início a uma nova rubrica aqui no blog que será dedicada a reflexões de temas variados (aceito sugestões - podem deixar em comentário). Serão textos relacionados com as minhas visões acerca de temas diversos que podem, ou não, estar relacionados com o mundo literário. 

Para o primeiro tema escolhi falar sobre um assunto que me diz muito: as leituras beta ou beta reading. 

Mas afinal o que é isto das leituras beta? 
Muitos escritores, antes de enviarem os manuscritos para as editoras, sentem necessidade de ouvir uma opinião de alguém. Normalmente procuram alguém que consiga encontrar incongruências, assuntos mal explorados, frases confusas... No fundo, procuram alguém que identifique aspetos que, durante o complexo processo de escrita, passam despercebidos.

O que é que eu faço enquanto leitora beta?
Há muitas maneiras de encarar este tipo de tarefa que nos pedem. Pessoalmente, eu sou exaustiva e minuciosa. Gosto de ver tudo quanto é pormenores. Para além disso, a minha formação académica torna-me mais acutilante em alguns temas. Isto reflete-se nos comentários que vão sendo feitos ao longo da leitura.
Gosto de fazer sugestões relativamente aos acontecimentos e desenvolvimento da narrativa, gosto de dar ideias de possíveis caminhos. Estou atenta a frases que me parecem confusas, às incongruências narrativas, personagens mal construídas. Tento ver tudo com o máximo pormenor possível. 
Só tendo este tipo de comportamento me faz sentido. Gosto de ser o mais honesta possível com os escritores que me procuram para fazer estas leituras. O meu papel é ajudar, logo ficar-me por comentários como "Não gostei", "Adorei", não vão ajudar nem servir o propósito do escritor. 

Dicas para quem quer experimentar fazer leituras beta
  1. Ser leitor assíduo - Não faz sentido partirem para leituras beta se não têm hábitos de leitura. Têm de ser pessoas que gostam de ler e que seja uma atividade regular na sua vida.
  2. Aceitar manuscritos de géneros que vos interessam - Se não gostam de ler romances não me parece que sejam uma grande ajuda se tiverem de ler esse tipo de livros. Facilmente se vão aborrecer e achar que está tudo mau. No meu caso, fantasia, distopias são o meu martírio. Já o fiz, mas senti que não fui tão bem sucedida como se se fosse em géneros que aprecio e me fazem pensar.
  3. Estar atentos aos pormenores - Neste tipo de leituras é importante estar atento a tudo o que seja mínimo. Pequenos detalhes fazem a diferença. 
  4. Digam tudo o que vos vai na alma - Escrevam tudo aquilo que o livro vos fez sentir. Se gostaram ou não gostaram, o que mudariam... Mesmo que os autores não concordem com aquilo que comentem, não deixem passar isso em branco. Vocês escrevem o que acham, depois cabe ao autor escolher o que acha mais adequado de acordo com a sua intenção. 
  5. Olhar para as personagens como se elas existissem - Eu gosto de materializar as personagens. Gosto de as tornar reais, de as analisar e esmiuçar e, assim ajudar o escritor à dar-lhes alguma dimensão, a torná-las apelativas aos olhos do leitor.
  6. Escrever um comentário final -  No final de cada leitura eu gosto de escrever um documento onde abordo tudo aquilo que senti com a leitura. Aqui também costumo fazer algumas sugestões de melhoria (por exemplo: indicar alguns acontecimentos que poderiam tornar o livro mais interessante), indicar mudanças mais detalhadas nas personagens... No fundo, devolvo ao escritor as minhas impressões. 
Já perdi a conta aos manuscritos que me passaram pelas mãos. Gostei imenso de todas as experiências que tive. Fico genuinamente feliz por ver as histórias que me passam pelas mãos voar e materializarem-se na publicação de um livro. Sinto-me muito grata pelos contactos que fiz com os mais variados escritores e as experiências positivas superam em grande escala as experiências negativas.

Apesar de gostar muito desta atividade vou entrar num período de "descanso". Andava a ameaçar-me a mim mesma que tinha de para um bocado. Para mim, este tipo de trabalho é uma aventura frenética. Quase que fico com comichão nos dedos para começar a "atacar" os manuscritos. Vivo aquilo de uma forma demasiado intensa e, nesta fase da minha vida, tenho de canalizar estas minhas energias para outro lado. Neste sentido, e pelo menos no próximo ano e meio, vou parar de fazer leituras beta. Poderei contribuir com pequenas coisas, mas não vou abraçar grandes manuscritos. 
Foi uma decisão muito ponderada e pensada. Daqui a um ano e meio logo penso se termino a "licença sabática" ou se me "reformo" desta atividade.