segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Visões #4 | Ser introvertida num mundo de extrovertidos(as)

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Não é nada fácil ser uma introvertida e viver no meio de pessoas extrovertidas. Geralmente sou incompreendida, apelidada de bicho do mato/buraco e vocabulário semelhante. Ninguém percebe a minha ansiedade perante encontros com imensa gente, com pessoas que, por vezes, nos são distantes.

Não percebem quando digo que gosto de passear sozinha e de visitar as coisas sozinha. Geralmente ouço "Sozinha! E com quem é que comentas se gostaste, ou não gostaste?". Eu respondo que não preciso de comentar com ninguém o que vi. Não preciso de validar a minha impressão com as impressões dos outros. Eu gosto de contemplar, de absorver e interiorizar. Mas quem é que entende isso?

É desta incompreensão que nascem as críticas, os comentários, palavras que magoam o nosso lado mais privado. Para além de gostar de passear sozinha, ou com pouca gente à volta, adoro ficar a ler no silêncio, ver um filme, ficar deitada na cama/sofá de olhos fechados a ouvir música clássica, pop, rock (aquilo que o meu estado de espírito precisar)... Mas isto, para a cabeça de um extrovertido que adora festanças, jantaradas, festas que se prolongam pela noite fora, é algo estranho. E do nada, torno-me numa espécie esquisita que não gosta de estar com pessoas. E ainda o pior na cabeça dessa gente é como é que uma psicóloga pode ser assim. 

Para grande azar meu, vivo rodeada de gente extrovertida. Pessoas que adoram almoços e jantares com muitas pessoas, que não concebem um passeio sem levar uma dúzia de pessoas atrás, que adoram sair e ir a festas cheias de confusão. Portanto, não é fácil a convivência! Quantos os acontecimentos de contornos "mundiais" acontecem fora de casa, ainda vou conseguindo escapar. Quando é cá em casa é mais complicado evitar. Estes acontecimentos esgotam-me as energias, sugam-me a alma, deixam-me super ansiosa acabando por interferir como os meus relógios biológicos e abata-se sobre mim uma imensa tristeza devido ao sentir-me deslocada da situação, ter dificuldades em integrar-me e não conseguir satisfazer a minha necessidade de sossego. 

É claro que este aspeto da minha personalidade também se reflete nas amizades. São poucas e diminuíram ao longo dos últimos anos. Quando o meu ideal de socialização e de vida social passa por partilhá-la com poucas pessoas ao redor, uma ida ao cinema, um pequeno passeio, um almoço ou jantar num local sossegado... Tudo à minha volta se complica e o afastamento dá-se. Já sofri com isso, hoje procuro ser mais serena e valorizar as pessoas que se mantêm na minha vida e que compreendem como eu sou e como lido com as pessoas e a vida.
Eu não fumo, não bebo álcool e não tenho simpatia por discotecas e bares onde não há espaço e silêncio para uma boa conversa. No fundo, mais um conjunto de características que acabam por ser um entrave àquilo que os outros chamam de bom convívio. 

Lidar com tudo isto nem sempre me deixa em paz de espírito. Por vezes, interiormente eu sinto que devia ser diferente, porque não me consigo encaixar nesses mundo mais eufóricos. E esta consciencialização da diferença e de não conseguir alcançar um nível mínimo de compatibilidade com os gostos alheio acaba por me trazer algum sofrimento. Não é que eu não goste de sair de casa e de ver coisa bonitas. Eu gosto, não gosto é o de fazer com qualquer pessoa nem com muita gente. Gosto de ir a um concerto, mas só aqueles que eu acho que vale a pena ir, que sei que vou gostar. 
Outros pensamentos que se atravessam na minha mente, e muitas vezes devido aos maravilhosos comentários, é que estou a trilhar um caminho que me levará à solidão, que vou acabar sozinha e sem ninguém. Bem.. eu gosto de estar comigo própria, como gosto de estar com pessoas que dizem algo, com pessoas com quem gosto de partilhar as minhas palavras. Se um dia vou acabar sem essas pessoas, não sei, mas quem é que garante que um extrovertido não ficará sem as mil e uma pessoas com quem convive? Será que um extrovertido cria o mesmo tipo de laços emocionais que eu crio com as pessoas de quem realmente gosto? É que eu, quando gosto de uma pessoa, gosto de lhe tocar a alma e coração com pequenos gestos, com palavras simples e sinceras. Às pessoas com lugar especial no meu coração gosto de as ajudar, gosto de lhes fazer um postal com uma pequena lembrança no Natal e no aniversário. Quando gosto, dou muito de mim e, por vezes, perco-me nos meandros da indiferença que acaba por ditar um afastamento. E na sequência de várias experiências menos positivas tenho-me tornado uma pessoa menos calorosa, mais fria e mais cautelosa. 

Gostaria de saber se há introvertidos desse lado e se partilham das mesmas angustias. Gostaria de saber como lidam com as situações sociais, como se sentem no meio de desconhecidos e como gerem isso interiormente. Reconhecem vantagens em ser introvertidos(as)? (Eu reconheço algumas e pretendo explorá-las noutro post). Como é, para vocês, ser introvertido(a) no meu meio de extrovertidos(as)?

2 comentários:

  1. Olá,

    Identifiquei-me muito com este post. Desde sempre que gosto de estar sossegada no meu canto, a ler um bom livro, a estudar, a pesquisar na internet. Não gosto muito de sair. E só o faço para coisas que realmente valham a pena e que,à partida, retire algum prazer.

    Não sei se isto é ser introvertido porque quando estou com as "minhas pessoas", sinto-me muito à vontade, sem introversão alguma. Não gosto é de "estar socialmente". Aí sinto-me também deslocada e sem saber o que dizer ou fazer.

    Felizmente tenho a sorte de viver com uma pessoa como eu. Não recebemos gente em casa e não vamos a casa de ninguém. Participamos só naquilo que realmente nos dá prazer e, acima de tudo, somos muito cúmplices.

    É evidente que isso nos isola muito. Ser uma pessoa solitária, quase sem amigos, acarreta sempre alguma solidão. Mas também acredito que a maioria das pessoas que vive rodeada de gente, se sente muito mais sozinha do que eu!

    Eu sou feliz da maneira que vivo e da maneira que sou! Sinto dificuldades a nível laboral, principalmente. Mas tenho vindo a ultrapassar aos poucos esses entraves. Não dou muito a conhecer de mim, e isso ajuda.

    Gostei muito de vir a este "cantinho"!

    Beijinhos
    Margarida

    https://minhacasadopatio.blogspot.com/

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  2. Olá Margarida!

    Muito obrigada pela partilha. É bom saber que talvez não seja uma ave assim tão rara :).
    Porque não é muito fácil ser assim, quando tudo à tua volta tem outra direção.

    Fico feliz por saber que tens ao teu lado alguém que te compreenda. Isso ajuda imenso.

    Com as minhas pessoas também me sinto à vontade, porém a minha natureza contemplativa continua lá. :) E

    Sim, a nossa forma de ser faz com que sejam poucas as pessoas à nossa volta. Mas como adoramos passar tempo connosco próprias e apenas com aquelas pessoas que nos dizem alguma coisa, nunca nos sentimos muito sozinhas. Há momento, claro. Mas estou como tu, quantas e quantas pessoas que vivem rodeadas de gente não se sentem também sozinhas? Quantas dessas pessoas não sabem aproveita o seu tempo sozinhas e ficam emocionalmente instáveis quando não têm um encontrou ou alguém para ter como companhia?

    Infelizmente estou "na teoria" desempregada. Vou fazendo algumas coisas com crianças e voltei a estudar. Mas, quando trabalhei, também foi algo complicado.

    Obrigada :D
    Beijinhos
    Silvana

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Obrigada pelo tempo que dedicaste à minha publicação!