quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Por detrás do autor | Teresa Poças



Hoje trago-vos mais uma entrevista. Desta vez é à autora Teresa Poças, que escreveu o livro de poesia A fronteira do perpétuo publicado pela Editorial Novembro.


Teresa Poças nasceu em 1996 e é natural da freguesia de Melres, Gondomar, onde viveu toda a sua infância e adolescência.

Wook.pt - Teresa Poças
Dotada de uma mente poética que desconhecia, desde cedo começou a ler e a escrever. Sentiu-se compreendida quando leu o seu primeiro poema. Percebeu como poderia expressar a sua essência quando leu as metáforas de Sophia de Mello Breyner: as coisas não eram só coisas. Depois de muitos rascunhos, encontrou o seu estilo próprio e, aos 14 anos, publicou o seu primeiro livro, Imensidão do Vazio.

Na simplicidade de uma pré-adolescente, espelhou-se a si própria de forma genuína: um mineral em bruto, talvez um dia um diamante. A pedra foi ganhando resistência e, após um longo período afastada da escrita – uma fase Caeiriana da sua vida –, voltou a sentir necessidade de se expressar, concluindo uma obra que reflete a entrada na idade adulta e a consolidação de si própria. 

A fronteira do perpétuo é uma das muitas fronteiras que terá de ultrapassar ao longo da sua vida. Foi escrita durante o seu secundário e o seu último ano de faculdade, incluindo uma passagem pela Dinamarca durante 4 meses. 

Atualmente, estuda Gestão na Universidade Católica Portuguesa e tem o sonho de usar a poesia em áreas diversas: afinal, não foi Pessoa que escreveu o primeiro slogan da Coca-Cola? (Biografia retirada do site Wook).

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Por detrás das palavras (PDDP) - É uma jovem escritora portuguesa que está a dar os primeiros passos no mundo literário. Quem é a Teresa enquanto pessoa comum e a Teresa enquanto escritora? Em que se completam essas duas facetas?
Teresa Poças (TP) - Terminei a licenciatura em gestão na Universidade Católica Portuguesa do Porto este mês de Julho e vou começar o mestrado em Marketing Estratégico na Católica Lisbon em Setembro deste ano. Perguntam-me muitas vezes porquê estudar gestão, sendo eu uma pessoa ligada à literatura. Admito que muitas das cadeiras mais técnicas me aborreceram, mas sou uma pessoa muito ligada ao mundo, à sociedade e ao funcionamento dos seus grupos e instituições e achei que gestão me poderia dar um conhecimento abrangente sobre esses tópicos, algo que se verificou. Acredito que esse meu lado mais concreto, realista e racional é o que diferencia a minha poesia. Ao mesmo tempo, tenho um lado bastante irreal em mim. Vejo mais nas coisas do que apenas elas mesmas porque sinto bastante tudo o que acontece e procuro significado nos pequenos pormenores da vida. Talvez porque acredito que a vida tem de ser mais do que aquilo que é e a única forma de o ser é atribuirmos o nosso próprio significado às coisas. Ao longo deste livro, está bastante claro a conjugação desses meus dois lados, um mais concreto, outro mais subjetivo, e os próprios conflitos que enquanto pessoa ultrapasso por os ter a ambos dentro de mim e é essa conjugação que me caracteriza enquanto escritora, nomeadamente enquanto poetisa e sujeito poético.

PDDP  -Como é que foram os seus primeiros passos na escrita? Quais as suas inspirações? O que é que a fascina?
TP - Eu digo isto na minha biografia: Senti-me compreendida no momento em que li o meu primeiro poema. Percebi de imediato que seria através daquele formato que me iria poder expressar. Sempre me fascinou a existência do eu e da alma, o conflito entre os sentimentos e a razão e a nossa capacidade de os controlar. Os meus primeiros poemas foram bastante focados nessas questões, de uma forma muito pura e genuína, de quem está ainda a construir a sua personalidade e a descobrir o mundo que o rodeia. Comecei por ler bastante sophia de mello Breyner, incluindo a sua poesia, porque ficava fascinada com as suas metáforas. Como disse antes, para mim, uma coisa não é só uma coisa e comecei a fazer várias associações entre vários objetos, sistemas, situações, grupos, elementos naturais e a usá-las para descrever melhor a complexidade da mente humana e dos seus respetivos comportamentos. Atualmente, tenho escrito uma poesia mais concreta, mais realista, talvez na procura da verdade, da disciplina do pensamento.

PDDP - A fronteira do perpétuo é o seu primeiro livro publicado. O que é que os leitores poderão encontrar neste livro?
TP - Neste livro os leitores poderão encontrar um pedaço de mim e da minha perspetiva do mundo e da sociedade. É um livro muito direto, apesar de toda a subjetividade intrínseca na linguagem poética. É um livro honesto, puro, muito sentido e ao mesmo tempo com alguma racionalidade.

PDDP - O que é que a inspirou na escrita deste livro? Quais os pontos mais fáceis e os pontos mais difíceis durante o processo de escrita deste livro?
TP - Perguntam-me muitas vezes como obtenho inspiração e em tom de brincadeira costumo responder: às vezes preferia não a ter. Por vezes forço-me a parar de escrever porque não quero pensar sobre as coisas ou ter os sentimentos tão à flor da pele. Mas é engraçado que consigo prever quando vou escrever um poema. Há um estado característico que me leva isso e normalmente é quando não consigo explicar o que sinto através de um discurso narrativo. Há sentimentos, situações e momentos que precisam de algo mais alto para os descrever e só a poesia é capaz de o fazer.

PDDP - Achei interessante a forma como dividiu os poemas ao longo do livro, distribuindo-os por seis partes e tendo em conta os pronomes pessoais. Pode explicar-nos um pouco os motivos que a levaram a fazer esta divisão? Tem algum significado especial?
TP - A separação dos capítulos é talvez aquilo de que mais me orgulho neste livro. Enquanto procurava um nome para cada uma das partes percebi que as podia dividir pelos pronomes pessoais e penso que muitos outros livros de poesia poderiam ser divididos da mesma forma. Afinal, a poesia baseia-se na definição do sujeito poético e nas suas várias dimensões enquanto ser social, ser pensante, que se situa em vários espaços, em relação consigo próprio, com o mundo, com a sociedade e com os que os rodeiam.

PDDP - Quais são os temas gerais que podemos encontrar nos poemas deste livro? Há algum tema em particular que lhe desperte maior interesse ou pelo qual tem um carinho especial?
TP - Os temas predominantes neste livro são a crítica social, a definição do “eu”, a procura de uma filosofia de vida ideal, a transição para a fase adulta e o amor.

PDDP - No poema Rede escreveu que “Não me quero arrepender de deitar um vestido ao lixo/ Quando encontrar os sapatos perfeitos para ele”. Fazendo um pequeno paralelismo com um livro, quais serão os leitores ideias para este livro? No fundo, que leitores não desistirão deste livro?
TP - Apesar de estudar gestão e de começar o mestrado em marketing estratégico já em setembro, nunca pensei nos leitores ideias para este livro. Não o escrevi com a intenção de me dirigir a um target específico até porque a poesia tem inúmeros interpretações possíveis e pode fazer sentido em diversos momentos da vida de um mesmo indivíduo. No entanto, penso que obviamente o público mais jovem, a partir dos 20 anos, irá sentir naturalmente uma forte ligação com a obra pelos temas abordados e pela forma como são abordados. Como disse, a minha poesia é bastante direta e tem traços claros da minha juventude e de espírito aventureiro associado a esta fase da minha vida. Para além disso, muitos dos poemas refletem a descoberta das várias dimensões da vida: o amor, as amizades verdadeiras, os sonhos, o “eu” enquanto ser social, entre outros. No entanto, é um livro que faz sentido ler noutras idades porque expressa os sentimentos humanos de forma crua e já muitas pessoas mais velhas me disseram: já tinha sentido isto, mas nunca tinha conseguido exprimir desta forma. É um livro muito jovem, mas ao mesmo tempo com pensamentos muito claros e definidos e por isso penso que faz sentido para várias idades.

PDDP - Em termos futuros, o que é que a Teresa espera conquistar relativamente ao mundo literário? Quer-se aventurar por outros géneros? Quais serão os eleitos?
TP - Não desenhei a minha carreira a nível literário, mas sonho com um mundo mais pensante, com mais sentimentos e mais poético. Penso que a poesia nos pode ajudar em vários momentos da nossa vida a pensarmos no que queremos para nós próprios e no caminho mais certo a percorrer. Não porque a poesia contenha respostas, mas porque nos faz pensar e porque vai até ao centro de várias questões, de forma filtrada, sem espinhos. É por isso que não escrevo com palavras complexas porque o importante para mim é a mensagem e a intensidade com que a mesma é passada.

Deixo aqui o meu profundo agradecimento à Teresa Poças pela amabilidade e disponibilidade em responder às minhas questões.

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