segunda-feira, 25 de abril de 2016

Opinião | "O Funeral da Nossa Mãe" de Célia Loureiro

O Funeral da Nossa Mãe
Classificação: 5 Estrelas

A minha experiência com os livros da Célia resumia-se a dois encontros agradáveis. Um com um conto, e outro com uma leitura beta onde procurei usar o olhos de lince e ajudar a autora. Estes dois encontros, foram a porta de entrada para a curiosidade. Após estas leituras e fiquei com vontade de conhecer mais sobre o trabalho da Célia e sobre as histórias que ela nos tinha para contar. 

O Funeral da nossa mãe chegou no Natal e pelas mãos de uma amiga. Foi ocupar o seu lugar na estante, mas sabia que não iria lá passar muito tempo sem que eu me atirasse a ele. 
Eu adoro alfazema! Recorro, muitas vezes, ao seu efeito relaxante. A capa trouxe-me esse cheiro, assim como muitos dos acontecimentos com que nos vamos cruzando ao longo das páginas.

Eu gostei muito da escrita da Célia, tal como já tinha acontecido em livros anteriores. Contudo, acho que ela exagera em algumas descrições e na narração de alguns acontecimentos. Enrola muito, recorre a metáforas e/ou comparações elaborados para nos mostrar sentimentos, situações... E isso, às vezes, torna a leitura mais lenta. O que é engraçado é que, se em outros livros eu poderia ficar aborrecida de morte e atirar o livro para um canto, com este tal não aconteceu. E porquê? Porque a conjugação entre enredo, personagens e escrita funcionou tão bem que facilmente seguimos embalados pela força dos acontecimentos e pela nossa curiosidade por saber por onde é que as personagens vão seguir. 

Outra situação curiosa tem que ver com a própria narrativa. À medida que ia lendo, procurava imaginar o que é que as personagens iriam fazer, e pensava Humm, de certeza que a Célia não vai seguir pelo caminho x. É demasiado óbvio. Porém, em alguns casos, a Célia foi mesmo por aí, mas a leitura, em nenhum momento, se tornou aborrecida ou fastidiosa por nos depararmos com algo que já esperávamos que acontecesse. E, na minha opinião, é genial.

As personagens deste livro estão muito bem construídas. Carolina é das que mais destaco. Sentimos que ela é humana porque conseguimos gostar e não gostar dela ao mesmo tempo. Se num momentos sentimos empatia pelos sentimentos que exprime, no momento seguinte estamos a condenar as suas atitudes de tão estúpidas que são. Ela sacrificou muito por aquilo que ela sempre desejou. Apesar de não concordar com a forma com que ela conseguiu construir a sua vida, consigo entendê-la. 
Lourenço é um homem que, a mim, me foi indiferente. Não lhe reconheci a força de carácter, não lhe encontrei determinação. Achei-o um resignado com a vida, com o sofrimento e com a amargura. E este tipo de personalidade condicionou a forma como olhei para ele ao longo da leitura. 
Ingrid é a inconsequente. Uma mulher a quem a vida também lhe ensinou muito. Achei a revelação final (não vou spoilar ninguém) uma grande lição de consciência. No fundo, ela pagou pelos atos inconsequentes que foi tendo. Penso que ela merecia um bocadinho mais no livro. Aliás, acho que só ela e a sua vida dava uma brilhante história. Houve coisas da personalidade dela que iam pairando na história, como por exemplo, o espírito livre, o não querer exercer medicina, a sua emotividade e luxuria no relacionamento com Lourenço... Tantas coisas complexas que a tornam numa personagem com uma história própria. 

Quanto às irmãs, gostei de partes delas. Alguns características de personalidade e alguns acontecimentos não fizeram muito sentido para mim. Ao longo do livro fui remoendo algumas coisas que achei que estavam um pouco desenquadradas. Mas as justificações e os desfechos que a Célia deu a toda a história a e a todas as personagens convenceram-me e aceitei o ponto de vista que a autora apresentou. 

Quero continuar a acompanhar o trabalho da Célia. E partilho o que lhe disse em privado, será umas tristeza se ela ou alguma editora nos prive de acedermos ao talento dela para nos contar histórias. 

2 comentários:

  1. Olá Silvana,
    Nunca li nada da Célia mas tenho muita curiosidade e deixaste-me ainda com mais vontade de ler algo.
    Beijinhos

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    1. Olá Tita,

      Eu recomendo que experimentes. Pelo que vou acompanhando do teu blog e das tuas leituras acho que és capaz de gostar muito.

      Beijinhos

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Obrigada pelo tempo que dedicaste à minha publicação!