sábado, 2 de agosto de 2014

Retalhos de uma leitura conjunta


Questões feitas pela Marta do blog I only have sobre o livro

1. Sobre a conversa que o Afonso tem com o padre Álvaro nas págs. 593/598, achas que no final ele sempre passa a acreditar na predestinação ou somos realmente indivíduos livres e donos do nosso futuro?
Acho que Afonso continuou confuso e querer acreditar em ambas as coisas. Só assim ele conseguia dar uma forma ao enorme sofrimento que estava a vivenciar naquela altura. 

2. Pareceu-te razoável que o escritor tivesse preterido apenas o Afonso a partir das págs. 548/549?
Não. Agnès partilha o protagonismo com Afonso e eu fiquei com curiosidade em relação à forma como Agnès reagiu quando Afonso não regressou para o descanso e queria saber mais sobre como ela lidou com tudo o que se passou em seguida. E sim, gostava de ter acompanhado o parto e os seus momentos finais.

3. Pareceu-te um final justo para a Agnès e o Afonso?
Esta é uma pergunta ingrata para uma pessoa que gosta de ver romantismo nos livros... Ou seja, era óbvio que teria adorado que estes dois tivessem terminado juntos. Adoro-os! Serão daquelas personagens que ficarão guardados na minha memória durante muito tempo. Apesar de tudo pareceu-me um final com impacto e que acaba por apanhar o leitor de uma forma mais inesperada. Agora em relação a justiça, pergunto-me diversas vezes se a vida é de facto justa para toda a gente... E cada vez chego mais à conclusão que não. Por isso, quero olhar para este final, não sobre os olhos da justiça, mas mais sobre as tristes circunstâncias da vida que nos levam por diversos caminhos, caminhos esses que derivam das nossas escolhas. Posso apenas considerar um pouco injusto, porque alguns aspectos da vida de Afonso não foram derivados da escolhas dele e sim daquilo que uma certa velha irritante, prepotente e manipuladora decidiu para ele.

4. Voltando a frisar o título, achas que encaixou bem para descrever toda esta maravilhosa história?
O título acabou por ser um enorme spoiler da história em si, mas confesso que por vezes o acho um tanto ou quanto redutor. A história é tão envolvente e cheia de tantas particularidades que o título apenas espelha uma pequena parte daquilo que os leitores podem encontrar ao longo de todo o livro. Eu continuo com poucas palavras para descrever tudo aquilo que o livro me fez sentir.

5. Quais as personagens que mais te marcaram?
Obviamente que Afonso e Agnès ocupam o pódio das preferências. São duas personagens encantadoras, profundas e cativantes. É difícil ficar-lhes indiferente. Adorei os diálogos deles, deixavam-me sempre a querer mais. Eram diálogos inteligentes e com sentido que me deixaram presa. Depois vem o Matias... Acho que era a forma como ele encarava a guerra e como ele lidava com os camaradas que o tornaram tão especial para mim. É claro que ele juntamente com todos os outros que faziam parte da Brigada do Minho me deixaram muitas recordações e me senti-me identificada com eles. Acreditem, muito daquele calão ainda é frequente aqui pelas bandas de Braga. Fez-me tanto sentido ler aquilo.

Esta leitura conjunta combina bem com...

Segue o Teu Destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa



Descreve o livro em 3 palavras
Envolvente
Real
Emocionante

2 comentários:

  1. Adorei essa parte do calão, tão verdade... quando li "espilrar" fartei-me de rir, já que os meus pais estão sempre a dizê-la.

    E estou como tu, apesar de adorar finais felizes, se este romance é para ser um retrato fiel do que possivelmente se passou com alguém, então é bom que tomemos noção que nem sempre a vida nos corre de feitio. Tal como ainda nos nossos dias acontece.
    E sim o título apesar de poder traduzir a essência do prolongamento daquele amor, acho que não traduz nem pouco mais ou menos o livro.

    Acho que nunca tinha lido esse poema do Ricardo Reis, também eu gostava mais do Alberto Caeiro, mas combina muito bem com o Afonso (se era mesmo nele que estavas a pensar)

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    1. Sim, acho que este final tem mais impacto... É claro que gostava de os ver terminar juntos, com a filha a viverem em Paris. Mas dadas todas as circunstâncias e tudo o que se passou acho que o final até está adequado. O pior de tudo foi mesmo "o raio da velha" Isilda. Se não fosse ela, possivelmente Afonso teria encontrado a filha mais cedo.

      O poema é para Afonso e a música para os cenários de Guerra. Eu também gostava mais de Alberto Caeiro. A minha relação com Fernando Pessoa / Heterónimos é assim uma espécie de amor/ódio. Dos poetas do século XX tenho assim uma preferência (grande) por Florbela Espanca.

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Obrigada pelo tempo que dedicaste à minha publicação!