quinta-feira, 22 de maio de 2014

Palavras Memoráveis


- Era tão meiga a tua mulher… - Joséphine oferecia-me de novo uma tigela cheia. – Não me lembro muito bem das suas feições – acrescentou ela - , mas sei que era doce tudo nela era doce, o olhar e a voz.
- Eu também não – disse eu –, não me lembro do seu rosto… Procuro-o, por vezes, tenho a impressão de que vem ao meu encontro, mas depois apaga-se, não resta nada, e então enfureço-me, acuso-me…
- Mas porquê, grande parvo?
- Não me lembrar das feições daquela que amei… Sou um patife.
Joséphine encolheu os ombros:
- Patifes, santos, nunca vi nada disso. Nada é preto ou branco, é o cinzento que se impões. Homens ou almas, tanto faz… Tu és uma alma cinzenta, estranhamente cinzenta, como todos nós…
- Palavras, nada mais que palavras…
- Que mal te fizeram as palavras?

Almas Cinzentas, Philippe Claudel 

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