sábado, 30 de novembro de 2013

Por detrás do autor | Carina Rosa

Hoje foi um dia muito importante para a Carina Rosa, uma vez que foi a apresentação da sua obra mais recente. 

Em jeito de comemoração, a Carina acedeu a responder a umas pequenas perguntas para a rubrica Por detrás do Autor. Espero que gostem da entrevista e não deixem de ler As gotas de um beijo. 



1. O que devemos saber da Carina enquanto pessoa para nos interessarmos pela Carina escritora? E o que é que cada uma oferece à outra?

Pergunta interessante. Fez-me lembrar a época em que treinava na Ginástica e dizia às minhas treinadoras, quando algo corria mal: “Não fui eu. Foi a outra”. Isto para dizer que talvez existam duas Carinas diferentes, ou muitas mais. Por um lado, sou muito tímida e reservada e detesto exposições em público. Por outro, sinto-me estranhamente corajosa por detrás de um computador, escondida entre as personagens dos meus livros. Ainda assim, acho que cada autor mostra um pouco de si em cada história e penso que as pessoas que me conhecem e lêem os meus livros me encontram por detrás das palavras. É giro ver isso. 

O que mais posso dizer sobre mim? Penso que é preciso possuir alguma dose de loucura para se escrever livros e eu tenho-a em demasia. (Não querendo assustar ninguém) Risos. Loucura no sentido em que penso muito nas coisas, demasiado na vida, puxo um pouco para o dramático e tenho uma série de medos, desconfianças e uma auto-estima um pouco baixa, que me levou sempre a questionar aquilo que faço e a acreditar muito pouco que pudesse ser bom. É um defeito do qual não gosto nada, mas penso que é por esse motivo que gosto tanto de personagens problemáticas. A Sara, da obra «O Intruso», é a minha cara e eu adoro-a por isso. Ela é um problema e essas personagens dão-me sempre alguma força. Adoro escrever sobre dramatismos e dúvidas existenciais e estou ansiosa para terminar o meu policial «O Escultor» para me lançar em outra história que tenho já pensada, muito no sentido das personagens que eu adoro. 

Isto para dizer que a Carina escritora e a Carina Pessoa se complementam. Nunca deixo de ser eu e não quero deixar de o ser. Acho que é uma das magias de se ser escritor: o poder mostrar ao público aquilo que sentimos, mesmo que através de outras pessoas, personagens e vidas. Sou muito lutadora, apesar da fraca auto-estima, muito exigente comigo própria e tenho sempre planos e metas traçadas para a vida. Escrever um livro leva imenso tempo (estou a trabalhar no «O Escultor» há cinco meses) e as coisas têm de ser planeadas se eu quiser mesmo fazê-las. Tem de ser um ciclo vicioso, sempre contínuo, e penso que adquiri essa disciplina e organização ao longo dos anos em que pratiquei desporto de alta competição. 

Adoro ler, fazer ginástica, ouvir música e dançar, cinema, teatro...enfim, sou muito ligada às artes, no geral.


2. Como descreves a tua paixão pela escrita?
Escrever é abstrair-me do mundo exterior e eu sempre gostei de o fazer. É uma forma de extravasar os meus pensamentos e sentimentos que vão cá dentro. Tem-se tornado cada vez mais uma necessidade, mas mais do que isso, sinto-me bem a escrever, principalmente as cenas mais românticas e as mais dramáticas (já me disseram que sou boa a escrever cenas macabras) mas não são, de todo, as minhas preferidas. Gosto de escrever frases poéticas, de grande intensidade, que puxam ao sentimento, e tenho descoberto na escrita uma paixão cada vez maior pelos diálogos. Acho-os cada vez mais fortes e importantes e tenho-me divertido imenso com eles. Escrever é dar forma aos pensamentos que me assolam à noite, novas histórias de vida que eu quero criar e lugares que quero visitar. Acima de tudo, acho que é sonhar, dar voz aos sonhos e alimentar os sonhos de quem nos lê. É uma forma de criarmos um mundo só nosso e de termos poder sobre o destino, pelo menos dos nossos personagens.



3. Os enredos e as personagens que crias em todos os teus livros surgem de forma espontânea ou buscas inspiração em algo? 

Acho que depende. «O Intruso», embora seja o primeiro e o mais imperfeito, é muito aquele tipo de história que eu sempre quis escrever, pelos problemas da Sara, que eu já expliquei, mas principalmente pelos temas que aborda: vida, morte, vida após a morte, vidas passadas e reencarnação foram sempre temas que me fascinaram. Isto ligado ao romance, que eu adoro, acabou por se complementar. O oculto fascina-me e quando pensei em escrever um livro pela primeira vez, tive certezas de que tinha de começar por aí. A história é completamente fictícia e foi surgindo passo a passo. 

«As Gotas de um Beijo» já é diferente. Acaba por ser real, sem o ser. Bastou-me olhar para dois amigos e para a relação que mantinham para lhes dar uma história. Não é verídica, porque acabo por ser eu a olhar para as pessoas e a imaginar o que poderiam ser juntas, e portanto a história acaba por ser fictícia, mas isso tem-me acontecido cada vez mais. Observar as pessoas e imaginar histórias de amor e de vida, no fundo, que podem dar bons livros. Este é um desses casos e eu prometi, um dia, a esses meus dois amigos, que haveria de escrever a sua história de vida. Vai ser sempre uma obra especial. 

O «Anjo do Diabo» - título provisório – é o terceiro romance que tenho na gaveta, que está neste momento nas mãos de alguns leitores-beta, em apreciação, e neste caso, foi uma amiga que me contou a sua história. É interessante, porque, de início, não achei que desse história, mas fiquei a matutar naquilo e no final da noite, o enredo já se tinha transformado de tal forma na minha cabeça, que eu já conhecia a Clara, o Hugo, o Santiago e a Tatiana, e confesso que é um dos livros que me faz mais feliz. Acaba por ser, de igual forma, uma história fictícia, porque muito pouco é real. Eu não gosto de me prender a uma história, gosto sim de ter espaço para imaginar, e penso que consegui fazer ali um bom trabalho, que ainda vai ser melhorado. 

Em relação ao «O Escultor», o romance policial que estou a escrever de momento, a ideia surgiu quando estava na redacção do jornal e abri um e-mail sobre um festival de esculturas em areia. Foi a primeira vez em que o título me surgiu antes da história e confesso que é uma obra complicada. É a terceira vez que a escrevo, porque tinha uma série de problemas ao nível da investigação policial e mesmo em termos de romance, porque é complicado conjugar ambos, mas penso que agora estou no bom caminho. Portanto, cada história é uma história e a inspiração surge quando menos se espera. 


4. O que consideras mais difícil na escrita de uma história?
O enredo, sem dúvida, a fase inicial, quando planeamos aquilo que queremos. A caracterização das personagens e as suas histórias de vida, porque tem de ser algo coerente e cativante e nem sempre é possível conjugar ambos. Acima de tudo, tem de existir um motivo para escrevermos uma história, ou ela será em vão, e esse motivo tem de ser forte, tem de ser algo que desejemos passar, uma lição de vida que queiramos ensinar. A criação desse enredo é o mais complicado, porque tem de ser conciso, bem delineado, interessante e sem pontas soltas. A ideia tem de ser boa, acima de tudo, ou podemos estar a perder o nosso tempo com uma história que nem sequer tem história. Depois de a história pensada, o mais difícil, para mim, são as cenas de acção, de conflitos finais, porque têm de ser fortes e nem sempre são fáceis de escrever. 


5. Intruso foi o teu primeiro livro publicado. O que é que esta publicação te trouxe de bom e de menos bom? 
Felizmente, só posso dizer coisas positivas. «O Intruso» levou-me ao mundo dos blogs literários que, desde então, têm criticado o livro e me têm ajudado em outras obras que tenho escrito. Confesso que, quando escrevi «O Intruso», não sabia nada. Hoje acho que é um esboço, apenas a primeira revisão de um livro, porque não houve outra, e só me posso sentir feliz pelo facto de as críticas serem, no geral, positivas, porque eu não tive leitores-beta, nem sabia o que eram. A obra foi publicada tal como foi escrita da primeira vez. Dei-a a ler a dois colegas de redacção e assim foi. Costumo chamá-lo o meu livrinho de bolso, porque é muito pequenino e imperfeito, mas vai ser sempre especial, por esse mesmo motivo. Acho que aborda temas muito interessantes e é uma pena que eu não os tenha explorado como devia ser, mas fiz o melhor que podia e sabia, na altura, e só tenho de me orgulhar disso, porque as opiniões continuam a chegar, mesmo passado um ano da sua publicação, e têm-me feito sorrir. Não considero a imperfeição do livro uma coisa negativa, porque a vida é uma aprendizagem e temos de começar de baixo. Se não me tivesse aventurado na sua publicação, nunca teria conhecido quem me ensinasse e ajudasse a escrever os meus próximos romances, e portanto, foi um bom passo. 


6. Hoje foi apresentação oficial do livro As gotas de um beijo. Como surgiu a história deste livro?
Bem, eu sorrio sempre que se fala desta história. Infelizmente, não posso contar tudo, mas surgiu num dia de sol, quando eu estava no jornal, e uma jovem mulher foi trabalhar mesmo na loja ao lado. Não é uma joalharia, nem ela é parecida com a minha Laura, nem fisicamente, nem psicologicamente, mas eu arranjei logo forma de oferecer um novo amor a um dos meus colegas, que eu achava sentir-se demasiado solitário. A Diana surgiu mais tarde, quando eu me lembrei: “Esperem aí: E ela? Esta história de amor é demasiado simples. Preciso de uma outra personagem. Que tal uma amiga? A melhor amiga? Que tal um triângulo amoroso?” Eu já tinha dito a estes meus dois amigos que haveria de lhes escrever a história de vida e disse ao meu colega: Vou mesmo escrever este livro. Vai chamar-se «A rapariga da porta ao lado». Ele incentivou-me e sei que não gosta do título oficial, «As Gotas de um Beijo», porque, para ele, há-de ser sempre «A rapariga da porta ao lado». Mas o título já existia e eu optei por algo mais original, que também teve a ajuda da Ana Ferreira, a leitora-beta que mais me ajudou nesta história, e de alguns leitores que votaram no leque de títulos possíveis. Acho que é uma história de amizade e de amor muito bonita, que não podem perder :).


7. Qual foi o teu principal desafio na escrita d’As gotas de um beijo?
Foi mesmo um Desafio, com maiúscula. Penso que a história, em si, é simples, e em termos de enredo, não me deu grande trabalho, mas eu já a tinha reescrito duas vezes quando mostrei à Ana Ferreira e ela disse-me: “Apaga. Reescreve. Isto não tem história”. Disseram-me que ela era a melhor e eu pensei: “Ok. O que está mal?” Depois de uma lição sobre conflitos, problemas e show/tell, deitei-me na cama e fiquei duas noites a matutar naquilo e a pensar no que raio queria ela dizer com conflitos e afins. Na manhã seguinte, acordei com um radioso dia de sol a saber tudo o que precisava de saber: começar pelo fim e reescrever tudo, tendo em conta o mostrar ao invés de o dizer, e lá escrevi o melhor capítulo da minha vida. (É brincadeira. Na altura, achei mesmo isso, mas agora penso que já escrevi bem melhor) Risos. Foi, sem dúvida, um desafio ao nível da escrita, porque foi um aprender a escrever do zero, com mais show, menos tell, e muitos diálogos. No final, estava super feliz. 


8. De entre as personagens que figuram neste livro, algum desperta em ti algum carinho especial? 
A Diana, sem dúvida. Identifico-me com ela, gosto imenso dela e queria tanto dar-lhe tudo o que pudesse! Sempre a defendi, do início ao fim. É aquela personagem que fica no coração. Acho que a Laura é forte e gosto bastante dela, mas é uma sensação diferente. O David irrita-me um pouco, embora o compreenda, mas acho que a Diana é o meio-termo de toda a história, o meio e a virtude. 


9. Quanto aos projectos futuros, o que é podes adiantar aos teus leitores?
Como já tinha dito, tenho o «Anjo do Diabo», uma nova história de amor com um vilão que eu adoro, com uma personagem principal forte e um marido excepcional, no computador, na gaveta, e nas mãos dos meus leitores-beta. É uma história que adoro e está a ser melhorada para ser publicada, se possível, no final do próximo ano. Entretanto, tenho estado a trabalhar no policial «O Escultor», uma história grande e complexa, em que tenho dado tudo de mim. É um desafio diferente, que estou a adorar. 


10. De todos os projectos e livros que já escreveste, independentemente de estarem ou não publicados, tens algum que seja mais especial para ti? Porquê? 
Até agora, «As Gotas de um Beijo» e «O Anjo do Diabo», embora de formas diferentes. O primeiro porque é uma história madura,com personagens mais velhos do que aquilo a que estava habituada a escrever, com histórias de vida mais pesadas e com uma necessidade de paz e de um recomeço que, também eu, por vezes, sinto. Acho que consegui fazer da obra uma história bonita, com uma amizade intensa e um amor profundo que é tudo o que eu sempre quis escrever. Acho que consegui boas cenas ao longo do livro que me fazem feliz e posso dizer que é este tipo de história, com este tipo de intensidade, que quero escrever ao longo da vida. É um livro que me faz sentir em paz, ao pensar nas noites de chuva, nas músicas românticas e nas cartas de amor, e naquela casa de praia tão maravilhosa como o paraíso. É uma boa sensação. 

O segundo é completamente diferente e também por isso gosto tanto dele. É especial porque nos mostra vários caminhos e várias escolhas ao longo da vida, a distinção entre o certo e errado, mas acima de tudo, a existência de segundas oportunidades. Não gosto de pensar que existem pessoas boas e pessoas más, e ponto final. Gosto de pensar que nada é tão preto no branco e que também aqueles que fizeram más escolhas podem redimir-se. Foi uma oportunidade, para mim, de dar uma segunda oportunidade, e sinto-me feliz por isso, além de falar de temas que me interessam, como a descriminação, o álcool e as drogas e, claro, amores arrebatadores que nos roubam a respiração. 


11. Se encontrasses dois leitores com um livro teu na mão e falar sobre ti o que gostarias que dissessem? 
“Uau! Adorei esta história! Não consegui largá-la até terminar e roubou-me completamente o sono”. Acima de tudo, gostava que falassem dos personagens como se existissem, bem ou mal, porque era sinal de que tocaram os leitores, e que, ao lerem o livro, se esquecessem completamente de que era um livro, que mergulhassem de cabeça e se envolvessem como se estivessem eles próprios a viver a história. Adoro quando falam dos meus personagens como se fossem reais, que os amem e odeiem em igual medida, porque os criei com essa mesma força. Acima de tudo, quero que se emocionem e sejam felizes. 


Muito obrigada, Carina!

2 comentários:

Obrigada pelo tempo que dedicaste à minha publicação!